16 dezembro 2004

Vida na Favela

Outra do diário de missionário, dia 18 de julho de 2003, em Inhaúma, Rio:
A vida na favela é estranha. Primeiro: tem muita gente lá. Muito mais do que deveria. Segundo: é um lugar organizado, por incrível que pareça.
Já passei por vários tipos de favelas, só hoje estive em duas, no Urubu e na Alvorada, do complexo do Alemão. A do Urubu é mais clássica, um morro, casas amontoadas entre a lama e as rochas, um bar aqui, uma padaria ali, tudo num clima meio preto e branco, meio cru, talvez pelo verde do matagal do morro. Já a Alvorada é diferente, é mais desenvolvida, mais colorida. Tem pelo menos dez vezes mais gente lá. Difícil achar um palmo de terra que não seja ocupado pelos milhares de casas, bares, mercados, locadoras, lojas de concerto de eletrônicos e igrejas, muitas igrejas, literalmente centenas delas. Nas ruelas estreitas, as kombis de lotação dividem espaço com o formigueiro humano, já que não existe calçada, e com os carros e motos dos traficantes e de uns poucos mais afortunados, mas que não podem ou não querem abandonar o lugar. Funk carioca é a trilha sonora predominante, permeado com uma música evangélica aqui e o som da novela da Globo ali. É um outro mundo, mais colorido que o Urubu, mas não tão onírico quanto a Cidade de Deus, onde o tempo pára e nem o barulho dos carros da via expressa ao lado consegue impedir o clima de dimensão paralela, de olho de furacão, aquela terrível sensação de que a calmaria aparente está prestes a desmoronar. Tudo isso controlado pelo tráfico, o Grande Irmão de todos os morros. Tanta gente ruim, mas, mais ainda, tanta gente boa, tanta gente enganada...

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